A tranquilidade dos 29.

Nunca gostei de comemorar os meus aniversários. Em miúda protestava com as ferramentas que tinha em minha posse. Ficar debaixo da mesa enquanto me cantavam os Parabéns era uma delas. Aos 29 anos tive que adquirir outras estratégias de protesto. Com sucesso, na última década escapei a todas as festas-supresa e aos jantares de aniversário com mais de cinco pessoas. Ao contrário de uma grande maioria, o aniversário é uma data marcada por um período de grande introspecção, durante o qual gosto de estar sossegada no meu canto com um livro ou um caderno e uma caneta. Se possível, sem grandes alaridos e no limiar da perfeição com poucos telefonemas. Mas lá vou tendo que atender um ou outro. O melhor de todos é o da minha avó paterna, que de tudo fala excepto do assunto em concreto: Parabelizar-me. E eu também não me descoso.
Este ano, contudo, vou sentir falta de um telefonema em específico. Vou sentir falta do calor que simples palavras me faziam sentir. Vou sentir falta de ter por perto os meus pais – em carne e osso. Vou sentir falta da minha irmã e do seu jeito desajeitado. Vou sentir a falta.
Pela primeira vez considero a possibilidade de cozinhar o meu primeiro bolo de aniversário. Sem velas e, provavelmente, sem ovos. É estranho como tudo muda. Aquilo que antes sempre lá esteve, agora não está; e somente assim sentimos a sua força e verdadeiro significado.
Acredito que esta tenha sido a maior lição que alguma vez a escola da vida me ensinou – a da ausência, ainda que muitas outras se avizinhem.

Contudo, esta última década foi especialmente dura para mim. Sempre me disseram que os vintes são os anos de ouro. Os anos da juventude, do descompromisso, dos testes e rascunhos para aquela que será o resto da nossa vida. Não sei bem se assim será. Nos tempos que correm, há uma constante pressão na busca pelo sucesso imediato. E também eu me vi a apanhar esse comboio, em que todos querem entrar. Ainda há dias em que penso que talvez fosse melhor continuar a insistir. Idealizo mil e um planos e ses hipotéticos. E este é o grande contra-tempo dos vintes.
Parece-nos que há decisões que somente se podem concretizar durante esta fase, e que depois tudo é dado como perdido… E, por isso, pelo sim, pelo não, lá corremos atrás daquilo que nos foi incutido como certo, não vá ser tarde demais.

Felizmente, os vinte e nove vieram acalmar esta minha ânsia de querer mais e a conviver com o meu eu tranquilamente. Aprendi a desconstruir estereótipos. Aprendi a deixar de parte as certezas que tinha. Aprendi a saber pedir desculpa. Aprendi a dizer que não. Aprendi a gostar de mim.
Aprendi que não faz mal sentir que mereces mais. Aprendi a desligar. Aprendi a deixar para depois. Aprendi a levar-me menos a sério. Aprendi a impor a minha posição. Aprendi a escolher as minhas guerras. Aprendi a pôr a família em primeiro. Aprendi a amar e ser amada.

Muitas mais aprendizagens me esperam. Por enquanto, há que saborear este desfecho de uma década. Bem-vindos sejam os 29!