Minha menina, faz-me o favor de ser feliz.

Há pouco menos de um ano escrevi aquela que foi a minha última publicação, sem ainda o saber. Prometia voltar com um novo endereço, numa nova plataforma e com um visual diferente. Mas a vida fez das suas e demorei mais tempo do que desejaria a preparar-me para este grande dia.
Em parte porque o meu perfeccionismo me impediu de avançar. Delineei cada detalhe ao mais ínfimo pormenor. Investi numa plataforma mais profissional e num domínio próprio, pedi ajuda para personalizar o layout, comprei uma nova câmara fotográfica e até um computador de alto desempenho para edição de vídeo e fotografia. Mas, ainda assim, fui protelando para mais tarde este meu regresso tão desejado. Durante muito tempo culpabilizei-me por isso. Sempre me perspectivei como sendo uma pessoa que planeia e faz acontecer. Contudo, acredito que este tempo de impasse foi essencial. Sei agora que precisava deste tempo para mim e para os meus.
Este último ano não poderia ter sido mais desafiante, quer seja em termos profissionais, pessoais, relacionais e até mesmo espirituais. Em Abril trabalhava em duplo numa tentativa frenética de desfrutar de umas merecidas férias. Ainda que exausta, aventurei-me pelo nordeste de França e por Praga, com as minhas sempre fiéis Canons. Assim que cheguei, mudámos de casa. Saímos de um apartamento minúsculo, num 13º andar, na Belavista para um T2 numa zona residencial de Lisboa. Seguiram-se tempos de renovação e de inúmeras idas ao Ikea, aqui mesmo lado. Pela primeira vez, a nossa casa assemelhou-se a um lar, ainda que fosse um destino provisório por entre turnos. Em resumo, vivia para um trabalho que me fazia infeliz, engordei mais de dez quilos e as insónias eram uma constante a cada noite. Liguei o piloto automático.
Até que por entre a azáfama da correria diária, me vi perante uma cama de hospital a ouvir aquelas que seriam as derradeiras últimas palavras de uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Minha menina, faz-me o favor de ser feliz. Quase que em modo de raspanete e simultaneamente de despedida.

Recordo-me de percorrer aquele corredor com a pior certeza da minha vida. Há coisas que a ciência não explica. Se assim o fosse, como explicar o aperto no peito que senti quando o momento chegou?! Estava nesse dia a trabalhar, em duplo, naquele que viria a ser o meu último turno.
Dei significado a tamanhas palavras e decidi abrandar o ritmo. Mudei de emprego e hoje sinto-me realizada, num ambiente que me faz crescer.
No entanto, fui adiando este encontro com o teclado, num completo estado de dormência. Até que me deparo com o meu disco rígido e vasculho as milhentas fotografias e trechos de vídeos amadores. É um tesouro ao qual gosto sempre de regressar. Minha menina, ouvi. Apenas sorri.
Nesse mesmo instante prometi que voltaria a escrever e a registar memórias, ainda que o mundo esteja do avesso. Afinal, estamos em sintonia. Mas recordemos que a cada reviravolta há sempre um ponto positivo. Ou dois. E este cantinho será um deles. Cheio de verdade e de partilhas.

1994 | Sesimbra (Ainda hoje faço esta cara e tenho o tique de juntar os dedos assim)